sábado, 8 de março de 2014

Até os cachorros da rua sabem mais de mim


          Sei bem: desde os primórdios da minha infância sou uma sonhadora. Sempre quis ter coisas que nunca poderia alcançar. Não, não falo de amor, porque não fui criada sob seu domínio; falo de ser importante pra alguém. Eu nunca fui importante pra ninguém. Não, não cobro amor. Não quero amor, quero paz. Quero poder sorrir sem despertar desconfiança. Quero chorar sem ter que abafar o som, sem ter que apertar a toalha contra o rosto, no banheiro trancado, para que a minha infelicidade não incomode ninguém. Não quero ter que calar a cada comentário preconceituoso que ouço, seja ele proferido contra mim ou qualquer outra criatura humana. É possível que haja ser humano capaz de atravessar uma vida fingindo ser feliz, mentindo para si próprio, fingindo concordar ou não se importar, mas essa pessoa não sou eu. Não, não espero amor. Eu quero o direito de viver só, de ser quem eu sou sem ser humilhada por isso, de sorrir sem ter que me explicar pra quem me xinga se desconfia que andei chorando. Não, não é necessário que se importe, mas passei uma vida inteira desejando loucamente ser respeitada. Não, não é necessário que me admire, que bote fé em mim, que tenha gosto pelas coisas que faço. Só quero não ter que dar satisfação para quem não se importa com o que sinto, para quem acha que eu deveria viver de aparências. Talvez a vida não pense como eu, talvez não ache que seja minha hora de segui-la em paz, ter liberdade. Odeio finais de semana, odeio feriados. Odeio ter que acordar. Há quem fale de mim sem saber, o que não é difícil, não é improvável. Até os cachorros de rua sabem mais de mim. Até as pulgas dos cachorros da rua sabem o quão grande é a minha vontade de ir pra bem longe, de sumir, de morrer. Queira Deus eu possa ir embora, se não pelo caminho certo, pela primeira via torta que eu encontrar. A vida é muito mais que tolerar pessoas que não nos amam. A vida é pra quem busca a felicidade. Eu tô procurando a minha.



*Texto editado, porque às vezes o melhor que se tem a fazer é não deixar que as pessoas saibam o quanto elas nos fazem mal. Não estou aqui pra alimentar o ego de ninguém.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Uma não-promessa de ano novo



     Eu não quero prometer. Pra mim, não faz mais sentido. Por que o término de um ciclo tem que vir acompanhado de promessas? Não se pode começar a mudança a qualquer momento do ano? Por que acreditar que tudo vai mudar quando o relógio der meia-noite? Que dom mágico as viradas tem de transformar as nossas vidas? Nenhum! Então, por que me condenam? Porque fujo ao senso comum? Me deixem ser sensata!
     Não haverá nova vida enquanto os problemas forem os mesmos, enquanto as pessoas forem as mesmas, enquanto as circunstâncias não mudarem. Vocês entendem que nem tudo na vida depende da gente? Vocês entendem que, por mais que a gente tente, a vida às vezes nos boicota? Eu não sei se é só o destino ao qual estamos condenados. Não sei se é merecimento. O fato é que é por vezes lutamos tanto e sempre aparece alguém e estraga as coisas. Não, eu não estou jogando a culpa pelos meus fracassos em ninguém. Talvez as ações das pessoas também sejam culpa minha. Minha culpa por eu ser quem sou, por simplesmente não ser o que se espera de uma cidadão comum ou por merecimento. A gente nunca sabe das coisas que fez em outros tempos, em outros corpos. O que me parece injusto, hoje, talvez possa ser justificado pelo histórico das vidas que se passaram. Ainda que seja isso, é tão difícil de aceitar, não?
      Pode todo esse discurso parecer bobagem, um grande desperdício de palavras, mas há dentro de mim uma angústia que não posso mais segurar. Por isso, escrevo. Não sei se está minha mente repleta de irreflexões superficiais, que penso eu serem pensamentos complexos. A não compreensão das estranhezas da minha vida e a não aceitação de todas as coisas ruins às quais ela já me expôs, me levam a um estado de infelicidade que, nos últimos anos, tem tomado conta de mim. Mas lhes digo: ninguém é infeliz porque quer.
       Muitas pessoas tem me criticado por eu não querer comemorar o Natal e a entrada do novo ano. Será que essas pessoas conseguem perceber quais são os reais motivos? Eu não preciso me obrigar a festejar quando minha alma está em luto, em luto pela minha felicidade. Eu não preciso forçar sorrisos quando passo horas do meu dia chorando escondida. Eu choro porque um dia eu cri que a vida seria diferente. Tivesse eu sido sensata tão mais cedo quanto possível, eu não teria encarado tantas decepções. É isso, é o que eu sempre digo: sou uma incompetente pra vida. Não consigo lidar com fracassos, e eles são constantes. Ano após ano, tentativa após tentativa, uma a uma foram falhando. Uma hora a gente cansa de lutar.
       Me perdoem se eu não tenho mais felicidade para lidar com as pessoas. Me perdoem se eu não sei mais sorrir, se não quero mais sair, se não quero conversar. Passar horas do meu dia acordada, é uma grande tortura. Eu sei que há pelo mundo uma infinidade de pessoas com problemas maiores que os meus, mas isso infelizmente não os anula. Tenho feito o que posso, por quem posso, mas as pessoas, geralmente, me passam a perna quando não posso mais ajudá-las. Por tempos, me desgastei, me doei, gastei meus salários com parasitas que aparentavam ser pessoas necessitadas. No final, quando o dinheiro acabou, eu não era mais ninguém. As únicas pessoas a quem ainda me dedico com fé, são as que se encontram em situação de rua. Sei que nada do que é feito por eles é em vão. Mas é só. É pouco, entende? É algo que tem, apesar das dificuldades, dado certo, mas é por outras pessoas, não por mim.
     Por fim, para não desgastá-los com a leitura, eu não prometo. Eu não prometo nada. Não prometo que a vida vai ser melhor, porque ela não depende de mim. Não prometo que tudo irá mudar, porque não depende só do meu esforço. Não prometo mudar para agradar as pessoas, para me adequar aos padrões. Não prometo mudar por quem diz que me ama mas não me aceita como sou, não sabe lidar com a minha personalidade. Não prometo não amar, não prometo não chorar, não prometo não sofrer. A vida não é de quem promete.


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A carne


 E foi aí que ele disse que não podia mais ficar. Com os olhos inundados, inchados, tentou balbuciar algumas palavras, ensaiou uma despedida em tom de pesar, mas a boca lhe tremia. Baixou os olhos então, não disse mais nada. Seu choro me apertava o coração e me rasgava o peito, atravessando-me garganta, porque eu também tinha muitas coisas a dizer, mas não sabia por onde começar. Eu não achava justo que tudo acabasse assim, então respirei fundo e concluí aquele que, de certo, seria nosso último diálogo:

"Mas por favor, rapaz, esquece a cor da minha pele. Esquece isso, por favor. Ser branco não é pecado, ser negro não é crime. A mistura é o melhor que a gente faz. Não liga pro que vão dizer. É tudo ignorância do povo, rapaz. Esse povo não sabe de nada, nego. Não sabe que a cor da pele é mero adorno da alma. Tens o adorno mais bonito! Fica, vai? Preciso de você aqui. Da sua voz, do seu cheiro, da sua pele. Fica que eu já não vivo sem você. Esquece o verde dos meus olhos, que eu quero o castanho dos seus aqui. Esquece o louro dos meus cabelos, que eu preciso do profundo negro dos seus. Esquece que meus antepassados falavam Italiano e, os seus, Iorubá. Esquece o que esse povo fala sobre as diferenças. Nos primórdios da espécie, éramos todos iguais. Somos todos iguais. Meu amor te vê exatamente igual a mim. Somos ligados por nossas almas, e a cor de nossa pele não pode nos dizer que não podemos ficar juntos. Isso é coisa dessa gente que discrimina demais. Quem não aceita o outro, se limita. Se limita por não se permitir o mundo que o outro tem dentro de si. Eu conheço seu mundo, nego, quero viver dentro dele."

Ele, por vezes me olhava, com os olhos cheios d'água, fazia ar de compreensão e tornava a baixar a cabeça. Não dizia nada. Estraçalhada por aqueles olhos doídos, pensei se continuaria tentando convencê-lo a ficar, já que percebia a cada palavra que sua decisão havia sido tomada. Ele estava decidido a partir. Quando ensaiei dizer mais alguma coisa, ele falou, sem me olhar nos olhos:

- Eu não entendo.
Silenciei, esperando que ele continuasse.

-"A carne mais barata do mercado é a carne negra".*
- Como?

Ele não repetiu.

-  Eu não entendo por que. As pessoas nunca nos verão como iguais.
- Não é necessário que nos apeguemos às opiniões alheias. O que importa está cá, dentro de nós.

Ele silenciara novamente.

- Você vai ficar?
- Vou.

Sorri. Sorrimos, e ele continuou:

 - Vou porque eu também não sei viver sem você.
- E sobre o que vão dizer? Não quero te fazer correr esse risco, se você não quiser.
- Eu não posso me importar mais. Concluí que tenho o que falta a toda essa gente: amor. É preciso muito amor para não odiar. É preciso muito amor para ficar. Eu fico. Eu fico porque meu amor por você já não cabe dentro de mim. Fico porque sou livre, e porque "a minha carne negra está cansada de ser presa"*.

Calei. As lágrimas tomaram o lugar das palavras. Palavras não eram mais necessárias. Sentamo-nos e esperamos o sol se pôr. Sabemos: um dia o amor vai ter que vencer.

* Trechos da música A carne, da Elza Soares



"Rico negro, no Brasil, é branco. Branco pobre, no Brasil, é negro." Eu não sou negra, mas esse racismo todo dói em mim. Deixa o meu bem ser quem ele é. Me deixa amar quem eu quiser.

domingo, 4 de agosto de 2013

Plumeria


         Hoje uma amiga postou uma foto de uma florzinha de jasmim-manga, Plumeria, numa rede social. Aquela imagem me remeteu à infância, quando, toda vez em que ia à escola em que minha mãe trabalhava, abaixava na calçada para pegar aquela florzinha branca com o miolinho amarelo ouro e extremamente cheirosa. Lembro como se fosse ontem. Minha mãe andando e eu, que toda vez ficava para trás porque parava para pegar uma florzinha. Não podia estar pisada, nem marronzinha, nem com uma aparência não agradável. Tinha que ser uma recém caída, bem vistosa. Eu tinha o maior prazer em colocar a flor bem pertinho do meu nariz, para que as pétalas grudassem nele quando eu cheirasse a flor. Coisa boba, de criança. Fiz isso, no entanto, até crescer. Há tempos não vejo uma árvore dessa mas, se visse, de certo faria o mesmo. Parece que ainda posso sentir as pétalas lisinhas encostando no meu nariz. Plumerias são uma das poucas lembranças boas, doces, que eu tenho da minha infância. O resto são só dores e lágrimas, sonhos e medos. Quando eu morrer, quero plumerias em cima de mim. Quero ir embora sentindo o único cheiro capaz de me fazer verdadeiramente feliz. Talvez traga um pouco de alívio ao meu pós morte. Talvez.


terça-feira, 16 de julho de 2013

Pra entender o erê...

 


         Esses dias me lembrei de uma história que minha mãe me contou. Ela conta que um dia, conversando com um erê, em algum momento da conversa, um dos dois falou sobre anjos.  Ele então lhe disse:

- Lá onde eu moro é sempre bonito. Faz sempre sol, menos de noite, que faz lua. É muito bonito, mas não é assim que nem onde moram os anjos. Tia, será que um dia eu vou virar anjo?
- Ah, vai sim, erê...Com certeza!
- E anjo tem asa, né?
- Tem sim.
- Então eu vou poder voar? - perguntou com um sorriso no rosto.
- Vai... Já pensou que legal?
- É... mas eu não sei se eu quero ter asas. Vou ficar parecendo um passarinho!

         Ai, esse menino... Meu amor mora em algum lugar do céu. É uma dessas estrelas que brilham ao longe. Deve ser aquela que nunca se apaga, que está sempre lá em cima quando eu olho para o céu à noite, à procura de uma resposta, um consolo, um afago. Se fecho os olhos cheios de lágrimas, tentando dormir, é sua lembrança que me acalma. Apenas, e nada a não ser a sensação de que ele está aqui é capaz de dissolver minha tristeza. Amor maior que o mundo. ♥


O dia em que desaprendi a escrever


         Tanto tempo sem escrever e não sei se ainda sou capaz de. É impressionante como a vida me tirou até o dom da palavra - se é que se pode dizer que eu o detive por um dia sequer. Não sei o que foi. Não sei se foram as decepções com as pessoas, as perdas, as tentativas frustradas. Não sei se foi o medo, o mundo, o amor. Não sei se foram os sucessivos erros ou se foi o término de Morangos Mofados. Alguma coisa aconteceu e desestabilizou a minha mente, inutilizou meu cérebro.
         Sempre fui meio burrinha, meio incompetente pra vida e todas as suas atribuições, mas sinto que de uns anos para cá fui decaindo vergonhosamente. Primeiro, deixei de ter a capacidade de escrever textos que fossem no mínimo decentes. Depois, de falar coisas que fizessem algum sentido. Por fim, perdi até a capacidade de raciocinar, de tentar entender as coisas que me foram acontecendo. Não entendo, não encontro caminhos para buscar entender, não sei por onde começar. Tenho a mente confusa e atenção nenhuma a coisa alguma. Não é que eu não queira; eu não consigo. De repente, regredi. Era melhor aos 16 do que hoje. Não sei se foi a violência sofrida ou a humilhação. Não sei se foram as mentiras ouvidas ou a sensação de inutilidade no ambiente de trabalho. Só sei que desaprendi.
          Lembro que aos 8 anos escrevi meu primeiro poema, a pedido da minha professora. Ela chamou minha mãe na escola para perguntar se o contato com a poesia era comum na minha casa, porque o meu poema foi o único daquela promissora sala de 2ª série que continha métrica e rimas e um número igual de versos em cada estrofe. Ela me considerou uma aluna avançada em relação aos outros. Com todo o respeito que tenho por ela, isso foi uma grande bobagem! Quando ela nos pediu que levássemos um poema para a escola, levei "Clarinha, à mamãe, chorosa" (que acredito ser de Olavo Bilac), que encontrei em uma revista. É evidente que aos 8 anos de idade eu não compreendi exatamente de que se tratava o poema, mas me assustei. Levei mesmo assim, pois foi o que encontrei. A professora se mostrou chocada e eu não a entendi. Por algum motivo, mesmo que eu não tenha entendido bem o poema, o medo se instalou em mim pela primeira vez. E permaneceu. Não o medo daquilo que ele realmente falava e eu não compreendia, mas da perseguição. Não sei se era intuição mas, um dia, muitos anos depois, ela se tornou real.
          Aos 9 tive meu primeiro caderninho de versos. Aos 13, me tornei amante incondicional de Cecília Meireles. A essa altura eu já era perfeitamente capaz de compreender o que lia, então eu chorava todas as vezes em que entregava meus olhos a um de seus poemas. "Pus meu sonho num navio...", e mal sabia eu que os meus sonhos também iriam afundar. Aos 15 tinhas tinha uma pasta -hoje perdida- cheia dos poemas que eu escrevi. Também nessa idade conheci Augusto dos Anjos. Me apaixonei. Um pouco de Bandeira, Drummond... Pessoa e seus heterônimos. Amei cada um como se estivessem vivos. Aos 17 minha professora de Língua Portuguesa me apresentou a mulher mais importante da minha vida: Clarice Lispector. Com esse forte amor pela leitura - que nasceu quando eu ainda estava aprendendo a ler, com meus 4, 5 anos, que se fortaleceu com o bendito livro do Armando - era de se esperar que eu fosse exímia escritora. Não sei por quê; não deu.
            Tive, por algum tempo, aulas de Redação com a Professora Eliza. Não havia quem gostasse dela, mas também não há, até hoje, alunos que escrevam tão bem quanto os dela. "Não repita palavras em seu texto. Substitua por outras que possuam o mesmo significado. Refaça!" Mas que parte? "O texto inteiro". E foi assim que ela começou, quando eu tinha 9 anos, a me doutrinar. Durante o Ensino Médio também a tive como professora. Eu fazia aulas de reforço de Redação porque minha mãe dizia que eu estava indo muito mal. E assim eu aprendi a não repetir. Cada crítica daquela professora me rendeu muitos elogios posteriormente, vindos de outros professores. E quem me via, pensava até que eu ia ser alguém. As únicas coisas que tenho repetido, até hoje, são os meus erros, mas isso não tem muita importância quando se sabe escrever bem. As palavras são as chaves do mundo. Abrem ou fecham-nos os caminhos de acordo com a forma como são aplicadas.
              Durante anos, eu me vi em progresso no que diz respeito à escrita, embora poucas pessoas o sentissem. Durante anos - sim, anos - meu sonho para a vida era escrever um livro. Desde nova. Eu não sabia exatamente sobre o que, mas eu sabia que, mais que gostar, eu necessitava escrever, então era isso que eu precisava fazer. Sonhava com meu livro. A capa, as páginas... Sonhava com as pessoas lendo e gostando do que liam. Ilusão ridícula, escrota. Só agora sei que não passou de uma grande bobagem. Hoje, ninguém pagaria para ler textos maçantes e mal escritos sobre assuntos desinteressantes. Acho que algumas pessoas só leem esse blog porque é de graça ou talvez porque a vida dessas pessoas seja mais sem sentido que a minha. Não sei. Nunca sei. De nada.
               Tudo na vida me chateia, todas as coisas. O desafeto, o desamor, a falta de beleza, de pessoas que sintam a minha falta, de dinheiro, de liberdade. Contudo, nada me fere tanto quando a desabilidade para a escrita. Escrever o que sinto era tudo o que eu tinha e, agora, o que me restou? Hoje (olha eu repetindo a palavra!) sou uma soma desimportante de olhos vazios e buracos na alma a uma mente improdutiva. Hoje sou a dona dos olhos baixos, dos olhos que só fazem olhar para o chão e nunca para a frente, dos olhos que tem vergonha de enfrentar outros olhos. Aos 27 anos, sou nada além de uma adulta que não consegue viver sua idade, que não consegue aceitar ser tão velha quanto se sente, que não aprendeu a viver. Não aprender a viver não é de todo mal. Ruim mesmo é não saber escrever.
                  Talvez seja isso, seja esse o problema. Toda a angústia, toda a infelicidade, tudo de ruim pelo o que passei, talvez não fossem nada além de minha culpa. Não sei quando nem por que, mas esqueci como me concentrar, desaprendi a escrever. É isso! A vida é ruim porque eu desaprendi a escrever, ou porque não percebi antes que, na verdade, nunca aprendi a escrevê-la.


segunda-feira, 18 de março de 2013

O fracasso me subiu à cabeça


        É quando eu fico sozinha que a tristeza me agarra e não me larga, por mais que eu queira me livrar dela. Quando me perguntam se eu sinto falta de alguma coisa do passado, digo apenas que sinto falta do tempo em que eu era feliz. É estranho e ruim não sentir mais aquela alegria pelo simples fato de estar viva. Às vezes eu fico me perguntando se um dia eu vou ser feliz de novo. Eu olho à frente e não cnsigo ver felicidade no meu caminho, fico apenas à espera do último dia, pensando nas coisas ruins que a vida vai me enfiar goela abaixo até ele chegar.
       Tudo o que eu tentei na vida deu errado, e eu não consigo mais ter vontade de fazer nada. Nada vai dar certo, então por que tentar? Cansei, não quero mais. Não acredito mais na vida. Tenho um desgosto profundo em viver. Tenho medo de morrer; não quero morrer. Entre o desgosto e o medo, não consigo encontrar solução alguma. A vida para mim é um eterno standby. Não consigo mais escrever; parece que desaprendi. Estou feia, tenho vergonha de sair de casa; me sinto ridícula. Não consigo acreditar em boas intenções. As pessoas sempre acabam me fudendo, me humilhando, me usando, me zuando, por mais que eu não as dê motivos. Às vezes penso que a vida conspira para mim, que ela espera que eu desista. Desisti, mas tenho medo de partir.
         Quero sumir, ir embora daqui, esquecer de tudo, esquecer de mim. Me falta dinheiro. Não tenho dinheiro pra porra nenhuma. Se tivesse, já teria ido embora, viver sozinha, em um lugar onde ninguém me conhecesse, onde ninguém fosse prestar atenção em mim. Eu tenho vergonha de mim. Vergonha de ser quem sou, de ser como sou. Eu tenho vergonha de não ser boa, de não ser bonita, de ser imbecil, de ter fracassado em tudo. Eu quero embora para um lugar onde as pessoas não irão me julgar, onde não irão rir de mim, onde não dirão mentiras a meu respeito. Quero um lugar em que eu não tenha que ser perfeita.
        Estou cansada de ter que ser perfeita e não conseguir. Estou cansada de ver olhares de reprovação e decepção. Estou cansada de não prestar pra nada nem pra ninguém, de ir levando a vida a base de pequenos momentos de alegrias forçadas. Cansei de beber para rir, e para esquecer de todas as coisas que tentei e não consegui. Estou cansada de comer para tentar empurrar minhas mágoas e tristezas e agonias e frustações goela abaixo. Cansei de me dar a quem me dá menos valor que se dá a um maço de cigarros. Cansei de fingir estar feliz, de fingir ser superior a tudo o que me fazem, ser dura, inabalável. Eu sou uma fortaleza destruída ao chão. Cansei de alegrar as pessoas enquanto minhas frustrações me destroem por dentro. Cansei de chorar por um amor que não vai voltar. Cansei de chorar escondida pelos cantos. Cansei de ouvir críticas de quem não quer me ajudar, e de ajudar quem só me usa quando eu tenho alguma coisa a oferecer. Cansei de não poder reclamar da vida porque existe milhões de pessoas nesse mundo levando uma vida muito pior que a minha.
             Não quero sair de casa, não quero trabalhar, não quero ver gente. Não quero ter que falar com ninguém, nem ter que ouvir ninguém. Queria dormir e só acordar no dia em que as coisas tivessem mudado para melhor, mas periga o dia de eu acordar nunca chegar. Não quero mais ter que olhar no espelho e ver uma pessoa sozinha, uma pessoa burra, uma pessoa incompetente pra vida. Tento fugir mas não sei para onde ir. Nesse mundo de absurdos, comecei a acreditar que eu é que estou errada mesmo, que o meu certo é surreal, que minhas conclusões são absurdas, que meus pensamentos são idiotas. Preciso de férias, de férias de mim.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Engoli minhas palavras por não ter o que dizer



         Mais uma vez me ausentei das palavras, não as libertei. Mais uma vez as deixei aqui dentro de mim, me torturando. Mas eu tive motivos; sempre tenho. Tudo o que passei nos últimos meses não foi fácil. Me permiti acreditar em alguém, em sua melhora, em sua recuperação, em sua família. Fui traída. Não por um parceiro, porque nunca houve parceria alguma afixada, mas por toda uma família que ajudei.
         Mais uma vez, fui dinheiro e não ser humano. Mais uma vez, minha presença foi desejada não por quem eu sou, mas pelo que eu podia oferecer. Quando passei a não poder mais oferecer, intrigas, fofocas, mentiras vindas dessas pessoas me afundaram ainda um pouco mais na lama da tristeza e do medo do futuro. Por que as injustiças acontecem? Eu dei o melhor de mim por pessoas que eu mal conhecia e elas me traíram por pura questão de interesse. Nessas horas a gente começa a entender por que tem gente que não sai da merda nunca. Não saem porque são interesseiros, traiçoeiros, são maus. Mas é nessas horas também que eu me pergunto por que a vida deixa que esse tipo de pessoa use pessoas como eu. Eu sempre fui honesta, sincera.
           Por que disso, meu Deus? Como pude ser tão cega? Como não percebi que eles estavam me enganando? Quando descobri, parecia um pesadelo. Sofri, chorei, perdi noites de sono por pessoas que simplesmente tentariam acabar com a minha vida quando eu não pudesse fazer o que lhes era conveniente, quando eu não pudesse mais dar roupas, comida, dinheiro. Aquelas pessoas que pareciam tão boas, tão coitadas, se transformaram em monstros dispostos a passar por cima de qualquer um que não lhes fizesse as vontades.
            Agora me digam, fiéis leitores: tinha como eu vir aqui dizer alguma coisa? O que é que eu ia lhes dizer? Chorei tanto por um cara que não valia nada, ajudei sua família quando ele... enfim, quando ele foi "retirado do convívio social por tempo indeterminado" e no final toda essa gente me traiu. Não sei o que ele pensa. Sua mãe não me deu mais as cartas. Não sei o que vai ser de mim quando ele voltar. Tenho medo. Tanto quis ajudar e só fui perceber que nenhum deles merecia ajuda alguma quando era tarde demais. E aí, meus caros, o que é que eu ia vir aqui lhes dizer? Que aquela mesma pessoa que antes se lamentava por ter dado fim a uma linda história de amor se meteu com uma gente dessa? Não era amor, nunca foi. Amor eu só tenho e terei até o final da vida, um. Aquele cara que me amou mais que tudo na vida. Com esse, o "perdido", era corpo, era carne.
              Acho que me perdi no dia em que eu resolvi que ia encostar o coração num cantinho, deixá-lo de lado. Acho que eu me fudi no dia em que desisti de amar e passei a ver minhas interações com homens restritas apenas a sexo, e sexo a gente tem de qualquer um. Sexo a gente tem de quem não presta. Não é que nem amor, que tem que prestar pra gente amar. Aí eu me fudi. Continuei com o velho amor no coração, mas com novas mágoas, novas dores, novas decepções e novos medos, que vieram de gente que eu nunca amei, de gente que nunca se importou comigo.
              Então, mas uma vez eu lhes pergunto: o que é que eu ia vir aqui lhes dizer?

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O Natal do menino de rua


      Década de 70. Eu, magro de se ver as costelas, negrinho, moleque, pivete, "pixote". Dentes meio apodrecidos, amarelos, cariados. A pele cinza de atrito com o chão. O cheiro forte da falta de banho. uns 9 ou 11 anos, não lembro. Não sabia da minha mãe. Desde que fui deixado, com alguns poucos anos de vida, próximo a uma linha de trem, não encontrei mais ninguém da minha família. Família... o que é família pra você? De companhia, os outros meninos, algumas meninas, as putas feias das ruas imundas do centro de São Paulo, os batedores de carteira.
     Dezembro era um mês bom. As ruas ficavam lotadas de gente fazendo compras. A época perfeita para bater carteiras, rasgar sacolas com comida, roubar os brinquedos que os almofadinhas iriam ganhar. Mesmo tendo que driblar a polícia, que matava os meninos na calada da noite, dezembro era um mês "feliz". Algumas poucas pessoas se compadeciam da gente, traziam algum resto de comida, alguma coisa estragada, que já dava pra forrar o estômago.
       Eu adoro árvores de Natal. Quando morava com a minha mãe, ainda pequeno, me lembro de passar noite e dia sentado de frente para a árvore de plástico desbotado, com meia dúzia de bolas velhas que ela fazia questão de montar. Apesar da pobreza, apesar da fome, do medo, da violência dentro de casa, apesar de talvez não se importar com o verdadeiro sentido do Natal, todos os anos a árvore estava lá. Mais tarde, nas ruas, eu podia passar o mês quantas árvores de  Natal quisesse - de longe. Sentava-me em frente às vitrines de lojas e portas de vidro de prédios e, não fossem os funcionários me exotarem, poderia ficar lá por horas admirando todos aqueles enfeites.
        Um dia ousei. Não sei se pelo efeito de alguma daquelas coisas que a gente "gostava" de usar ou só por vontade mesmo, entrei em uma loja e roubei uma bola da árvore. Quando me virei para sair correndo com a bola, que brilhava, brilhava... fui pego pelo segurança da loja, que me arrastou para um beco próximo e me bateu até que eu não pudesse mais tentar reagir. Aquele filho da puta! Nunca esqueci da cara dele. Ninguém esqueceu e um tempo depois os camaradas fizeram com que ele tivesse o que merecia. Era assim que as coisas funcionavam na rua, e era por isso que me chamavam de marginal. Uma loja tão grande, que vendia coisas tão caras, não poderia sentir tanta falta assim de uma bola de árvore de Natal. Mas isso n]ao era coisa recente. Esse cara vivia batendo na gente, acordando a gente no chute. Uma hora isso tinha que acabar. A bola de Natal foi a gota d'água.
        À noite a gente brincava de troca de presentes debaixo do Viaduto do Chá, ou de qualquer outro viaduto, ponte ou passarela ali do centro. Os presentes, claro, eram aqueles que a gente tinha roubado nos últimos dias. A nossa "ceia" (e só hoje sei que aquilo se chamava ceia) era um misto das comidas que a gente conseguia roubar e dos restos que a gente ganhava dos funcionários dos restaurantes e botecos. Alguns davam por dó, outros por medo da gente tentar invadir, ou por não querer que a gente fizesse sujeira na calçada rasgando os sacos de lixo. A verdade é que nós éramos a sujeira na calçada. Depois cada um ia dormir, com o calor e a saciedade que só a pedra maldita nos proporcionava.
        Àquela época, eram comuns as chacinas, principalmente em períodos de maior movimentação na cidade. A Prefeitura queria limpar as ruas da gente. A polícia praticava, o Governo endossava e a população apoiava. Acordar vivo no dia de Natal era o verdadeiro presente. Vagabundos. Nós éramos chamados de vagabundos. Pivetes, imundos. As madames passavam pela gente e, se olhassem, era sempre com aquela cara de nojo. Por isso a gente roubava, porque não adiantava pedir. Com elas, não tinha essa de espírito natalino. Nós éramos o resto da sociedade, o lixo da cidade, pivetes e moleques que não deveriam estar nas ruas. Pra essa gente, a gente não deveria existir, porque a gente era a expressão da sujeira, da pobreza, da criminalidade. Gente assim não merecia Natal.
        Nesse ano - meu último ano aqui - um grupo de coroas da Catedral resolveram fazer uma comemoração especial pra gente. Muita comida, muitos brinquedos. Foi o dia mais feliz da minha vida. Ganhei comida, ganhei roupa, ganhei brinquedo. Nesse dia eu ganhei carinho. Fui dormir feliz. A noite foi contrubada, como todas as outras nas ruas do centro, muita coisa aconteceu.Sob circusntâncias das quais eu prefiro não falar - não quero lembrar! - parti. E na manhã seguinte, eu era só um menino frio, com um carrinho e um estilingue nas mãos. As ruas já não tinham mais lugar pra mim.



     - Essa história é fruto da união de alguns relatos de fatos reais e, talvez, dos meus pensamentos sobre essa criança que partiu precocemente. Não sei se esse dia fatídico foi a noite de Natal, mas sei que aconteceu, e acontece há décadas em nosso país, dia após dia sem que ninguém se importe. Não só nesse Natal, mas daqui até o fim de sua vida, seja pai, seja mãe de um menino de rua. Alimente, aqueça, dê um pouco de carinho. Ao invés de se preocupar com os presentes que você irá ganhar, se preocupe com os presentes que você pode dar a eles: uma sociedade mais justa, reinserção social, a chance de uma vida nova. Eles precisam. Eles merecem.
     Nesse Natal, desejo que cada menino, cada menina, cada homem, cada mulher em situação de rua deixe de ser invisível. Que o Governo olhe por essas pessoas, que os projetos sociais se intensifiquem. Que cada um tenha forças para lutar, para sair das ruas. Mais do que sso, que as ruas saiam de cadauma dessas pessoas.
      Em memória dos meus dois amados, que levaram vidas tão difícieis, tão crueis, e que foram levados desse mundo precocemente. O menino da favela, que tinha mãe mas não sabia o que era comida. O menino das ruas, que roubava comida e não sabia o que era amor. O futuro não chegou para eles. Que o Pai Maior ilumine sempre essas duas almas que tanto amo.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A venda da mentira

          Releio velhos rabiscos, palavras estúpidas por um amor que nunca existiu. Me pego pensando em coisas ruins que, por muito tempo, cri serem boas, em pessoas para quem eu não existo. O silêncio devora, o vazio sufoca, a lembrança desnorteia, a desilusão dói. Tudo agora parece tão diferente, mas essa dor ainda está aqui. Eu ainda não consigo entender quais são os reais motivos. Tantos anos mergulhada nesse mar negro e viscoso que já não posso compreender sua real origem. Não consigo entender o prazer que as pessoas sentem em enganar alguém. Não entendo por que machucam ou prejudicam quem nunca lhe deu as costas. Não entendo por que algumas pessoas usam as outras como se fossem meros instrumentos para a realização de seus planos. Não entendo por que, por diversas verzes na vida, fui capaz de acreditar em quem escondeu coisas ruins de mim, quem não foi honesto comigo. A realidade é imunda, mas postergar sua revelação me fez sentir mais dor e talvez vergonha - de mim mesma - do que eu teri sentido se soubesse de tudo desde o começo. Não há sinceridade. Não existe o amor, não existe a preocupação. O que existe é o interesse que algumas pessoas tem nas outras. Talvez seja só isso que mova o mundo mesmo: o interesse. Talvez pessoas como eu estejam fadadas a serem enganadas e usadas. Talvez.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Só porque eu não uso camiseta desbotada

         Ela era Alice, ele, tipo Ramone. Ela usava salto; ele, All Star preto. Ela gostava de brincos dourados; ele, de camiseta de banda desbotada. Ela não vivia sem pulseiras e esmate; ele, sem cigarros. Ela bebia para esquecer; ele, para celebrar. Ela queria conhecer o mundo; ele, era feliz em seu mundinho. Ela estava disposta a mudar; ele, desconhecia a metamorfose. Ela pensava nele. Ele sonhava com ela dia e noite. Ela era tudo o que ele queria, mas ele não curtia o estilo dela. Perdeu a mulher mais incrível que passara por sua vida para a intolerância.


Da redução da maioridade penal

        Essa semana li alguns artigos e assisti algumas repostagens e documentários sobre menores infratores. Desde crianças de 5 anos já dependentes químicas a adolescentes com uma vasta ficha criminal. Uni as informações adquiridas a uma certa experiência que o exercício da Educação e o convívio com pais e alunos acabou me provendo e, pode ser que eu esteja errada, mas concluí que não é a maioridade penal que deve ser reduzida. Não é o adolescente nem muito menos a criança que devem ser tratados como adultos. Eles cometem crimes de adultos mas não o são, são cidadãos ainda em formação, na grande maioria das vezes fruto de famílias desestruturadas e extremamente problemáticas. Pais (mães, irmãos, etc) envolvidos com a criminalidade, usuários de drogas, agressivos, mortos sem que um culpado fosse apontado ou punido. Talvez esses menores sejam vítimas de uma ação epigenética negativa.
         Não sou a favor da não-punição - jamais! - creio que todo erro deve ser penalizado, mas tratar criminosos de 8, 11, 15 anos como se eles tivessem 18, 20, 30, não irá suprimir a criminalidade; irá apenas inserir tantos outros menores, cada vez mais novos, em determinadas práticas ilícitas. Talvez o princípio da solução seja, não tratá-los e penalizá-los como adultos, mas implantar-se no Brasil um conjunto de medidas que evitem a inserção dessas crianças e adolescentes no crime e que sejam capazes de reeducar e recuperar aqueles que já fazem parte dele. É claro que toda recuperação depende da boa vontade do reeducando, mas para que as possibilidades sejam maiores, é necessária uma atenção mais efetiva por parte do Governo e políticas públicas mais condizentes com a nossa realidade.
        Creio, no auge da minha ignorância, que uma maior supervisão de famílias em situação de risco por parte das assistências sociais e conselhos tutelares, uma alteração nos estatutos e leis que protegem o menor, alterando talvez a visão de "cidadão de direitos" para "cidadão de direitos e deveres", atendimento psicossocial para pais/responsáveis e seus filhos e um maior investimento nas fundações de recuperação de menores infratores, seriam o início de uma mudança positiva em um quadro que hoje parece impossível de ser transformado. Não se deve culpar uma criança pelo que ela é. Não discorrer aqui quanto ao que penso acerca de cada uma dessas medidas, o que penso eu que deveria ser feito em detalhes. Tomar-lhes-ia muito tempo a leitura.
          Quando o menor chega ao ponto de ser recolhido a uma unidade de recuperação, é necessário que essa unidade seja capaz de oferecer atendimento psicológico e educativo adequados, a fim de se tentar recuperá-lo, reeducá-lo e dar-lhe um novo sentido à vida. Sim, cada caso é um caso. Sim, existem pessoas (menores) "ruins", mas eles são resultado de uma série de falhas políticas, como a baixa qualidade da educação, a falta de atendimento social adequado a famílias desestruturadas e a ausência quase total de políticas eficientes de controle de natalidade. Enquanto o cidadão estiver em formação, ainda existe uma esperança de que ele possa ser recuperado. Criança não nasceu para roubar, não nasceu para matar, nem para morrer.
 
 

Do amor eterno

         Não entendo essas pessoas que querem esquecer um grande amor às nossas custas. Isso não existe. Cultive seu grande amor dentro de si por uma vida inteira. Ele não precisa morrer para você viver. Outras pessoas virão; aproveite, seja feliz com elas, as faça feliz. Uma hora a lembrança irá apertar, o vazio irá retornar, mas não espere que as pessoas preencham isso. Não é a obrigação delas. Eu nunca quis que alguém me fizesse esquecer meu grande amor, mas nem por isso deixei de ser feliz com quem esteve ao meu lado. As pessoas serão sempre diferentes umas das outras. Não é preciso que um amor morra para que outro nasça. As coisas simplesmente mudam de proporção ao longo do tempo e dadas as circunstâncias, e uma hora tudo fica tão pequeno que para de doer. Não espere esquecer alguém para começar algo novo com outra pessoa. Não espere também que essa nova pessoa vá resolver todos os seus problemas. O amor é seu, quem tem que se entender com esse sentimento é você. Deixe-se conquistar, deixe-se mudar de ideia, deixe-se esquecer e recomeçar. Ninguém nunca conseguiu ser feliz sentado no sofá, se lamentando pelo passado que não volta ou pelo futuro que não virá. Não me espere esquecer alguém para me amar. Me ame e você será mais importante do que tudo aquilo que passou.


Velhos rabiscos

        Fiquei muito tempo sem escrever aqui. Sem escrever, de um modo geral. Em alguns dias, encontrei 5 minutos e escrevi "um qualquer coisa" no Facebook, ou criei frases na minha cabeça e fiquei repetindo-nas mentalmente como se fossem uma espécie de mantra. Vou transcrever tudo aqui. Espero, fiéis e queridos leitores, que gostem.


I'm nobody

         Tanto tempo sem escrever... Eu não tinha palavras, não tinha cara pra vir aqui assumir que sofri sem ter motivo, que sofri por alguém que não mereceu uma lágrima sequer das milhares que derramei. Fui enganada, mais uma vez, e é vergonhoso admitir isso. Agora luto para esquecer cada um daqueles dias vividos em vão, cada um daqueles dias em que eu pensei ser bem quista, em que eu pensei ser importante. Não se mudam pessoas ruins. Não há quem faça milagres e eu fui tola ao pensar que poderia salvar alguém do mau caminho. Eu não fui nada, não fui ninguém a não ser aquela que iria tornar a vida de um "qualquer um" um pouco mais conveniente. Eu era nada, era "qualquer uma" pra ele e, por mais que ele não me tivesse lá grande importância, isso me dói. Me dói não ser nada pra ninguém.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O mundo é um moinho


     Não, não tinha como. Não dava mais para esperar. Quase dois meses sem escrever. E as palavras me sufocavam. Sempre chega aquele momento em que nem as lágrimas são o suficiente para expulsar aquela angústia que se embola na garganta, que dói até o estômago. A vida às vezes parece um pesadelo. Você vive dias mediócres a fio, mergulhada em trabalho e pensamentos e dúvidas e dores e medos, e quando chega o final de semana, você só quer morrer para aquela vida. Outra pessoas, você quer ser outra pessoa. Aí você sai, você quer ver o mundo, e toda aquela angústia, toda aquela ansiedade, se transforma em compulsão. Daí você não para enquanto o último copo não secar. Você não para enquanto não tiver conhecido e rido com todas as pessoas do rolê. Mas por dentro você continua triste, vazia.
      Muitas vezes você acredita que passar um final de semana vivendo como as pessoas de fotos de internet significa que você tem uma vida divertida, que você é livre, faz o que quer, todo mundo te adora por isso e isso te basta. Não, não basta. E eu já falei sobre isso na minha última postagem, sobre a maldita sexta-feira. Lembram? É... sem dúvida tudo isso que eu estou vivendo hoje é resultado daquelas sexta-feiras em que eu saía para beber, ver meus amigos e rir mas, principalmente, para ver alguém. Ele. Desde que o conheci, sempre ele. Quase que exclusivamente. Quase porque não havia aquele compromisso firmado em palavras. Eu nunca disse sim. Aí um dia a gente brigou. Ele não me olhou nos olhos, mas disse que não, que não era mais pra ser.
        Acreditem: eu havia escrito um texto enorme, mas resolvi deixar para lá. Para lhes explicar o que estou passando nesse momento, eu tomaria-lhes muito tempo. Tomaría-nos. Eu poderia, mas seria em vão. Só precisava dizer que a vida é injusta e surpreendente. Quando a gente pensa estar deixando algo para trás, a vida volta e coloca tudo no nosso caminho novamente, mas de forma diferente e, se o meu foco antes era um desses caras que a gente conhece por aí, numa noite qualquer, e que acabam ficando na vida da gente, hoje esse foco mudou. Por trás de uma pessoa com problemas, existe sempre uma família com tantos outros problemas. Aí a gente que já não tem muito a ganhar ou perder na vida, conhece, se apega e passa a sofrer junto. Porque deixar sofrer sozinho é injusto. Não tentar aliviar a dor alheia a injusto.
         Agora a gente fica que morre de saudade sem ter notícias e não pode fazer nada. É a vida, é a vida... O mundo é injusto e, não, a gente não pode fazer nada. Quanto tempo isso vai durar? Quanto tempo irá levar pra esse tempo passar? Há coisas novas na minha vida, eeu esotu amando isso, mas acontece que as circunstâncias que nos levaram a esse momento não são as melhores. Definitivamente não são. E agora eu faço o que? Não caibo mais em mim de ansiedade, de dor, de impotência. Não vou te abandonar. Não vou abandoná-los. Mas volta. Volta logo, que a gente não tá dando conta de viver sem você. Vou deixar de lado o mundo, vou dormir. Só me acorde quando esse sonho ruim tiver acabado.


Tá tudo cinza sem você, tá tão vazio... ♪
=´(

terça-feira, 28 de agosto de 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Tudo, tudo menos o apego...


     Ontem me peguei anseando pela sexta-feira, como sempre. Sexta, a grande sexta, dia do rolê. Era tudo muito bom, tudo muito divertido. Sexta-feira, dia da felicidade clandestina, da felicidade temporária. O descompromisso, a pegação... até que um dia você para em alguém e aí o que era alegria vira ansiedade, uma coisa ruim. Rolê e homem são duas coisas que não combinam. Vai misturar, dá merda. Acho que me expressei mal. Se a gente vai pra certos lugares - eu disse certos lugares -, a gente já vai na intenção de pegar alguém mesmo. E isso é bom. É ótimo, mas se rolar a segunda, se rolar a terceira, faça-se um favor: suma! De verdade. Mude de rolê, vá pra outros lugares, apaga o telefone da agenda do celular.
     Ter sempre o mesmo cara no rolê, dá merda. Você vai porque se diverte, porque curte, mas também porque sabe que ele vai estar lá. Rola aquela expectativa. Você vai se divertir se ele não estiver lá, você vai pegar alguém mas, no dia seguinte, vai acordar se roendo querendo saber onde e com quem ele estava e, se ele estava lá e você o viu com outra, aquilo será o suficiente para acabar com a sua semana. Geralmente ele é seu no final das contas, ele sempre volta, isso é fato, mas se algo der errado, você surta, passa uma semana inteira agoniada sem saber no que vai dar a sexta seguinte, se as coisas vão ser iguais, se vocês vão fingir se trombar por acaso pra desenrolar tudo de novo. Surta e cai num desgosto de viver como se ele fosse o grande amor da sua vida - e não é. E isso, isso meus queridos é o maldito apego 
      Vamos deixar uma coisa bem esclarecida: ter apego não quer dizer que você queira só ele (ou quem quer que seja, para quem tem gostos diferentes - não importa, as relações intrapessoais implicam nas mesmas angústias, independente daquilo que você gosta), mas que você quer estar com ele mais do que qualquer coisa no mundo. Uma vontade e uma ânsia inexplicáveis, sabe? Porque ele tem tudo de ruins, mas você sempre se apega àqueles "5 minutos" que valem a pena. Entendam, meus amores, que muitas vezes aquilo que a gente chama de amor, nada mais é do que apego. Apego é dependência, e não há nada pior que depender da companhia de alguém para ser feliz. Da companhia, entende?, não do amor.
     Tentemos compreender: o amor é uma bosta e a paixão também, mas o apego, ah... o maldito apego, esse sim é o grande filho da puta. Porque a paixão a gente esfria, o amor a gente esquece mas, o apego, esse parece ter um pacto com nossos hormônios, um pacto para acabar com nosso equilíbrio emocional. Aí a gente perde a linha, sabe? Aí a gente perde tudo... a noção do perigo, o raciocinio lógico, a vontade de viver outras coisas. A gente perde a esperança, a auto-estima. Sim, porque dada essa situação, você se sente um animal domesticado sujeito às vontades de seu dono. Você só é livre quando ele quer, você só é dele quando ele quer. Ele te tira das mãos de outras pessoas porque acha que você está lá por ele - e está!
       E o que faz com que o outro, que não te quer pra sempre, que não te quer todos os dias, faça assim questão de te ter na sexta-feira? Há tantas outras, não há? Tantas mais bonitas, tantas mais gostosas, tantas mais dispostas a ceder a quantos capichos ele vier a ter. Aí te quer no sábado também, mas durante a semana esquece que você existe. O "lanchinho" do final de semana. É claro que os casos são específicos. Um namora, o outro é galinha, o outro tá na vida bandida, mas seu coração pulsante ou seus hormônios não viram isso, não querem saber disso. Por vezes você vai saber por que ele não pode ou não quer estar sempre com você, e por que ele não te larga mas, sei lá, a incerteza corrói.
       É isso! A incerteza. E incerteza gera insegurança. Eu sei que eu vou chegar lá e tudo vai acontecer de novo mas, e quando não acontecer? "Você me instiga! Não sei o que acontece, não sei o que você me faz, como você me prende." Não sabe, e isso me dá insegurança. Há pessoas que definitivamente não nasceram pra fazer parte de nossas vidas. É gente que não presta, eu sei, mas como é que se diz isso ao apego. Volto a usar aquele trecho de música "O day after é ruim, mas à noite é tão bom...". O day after às vezes não é um dia, mas uma, duas semanas, um mês. Mas isso não é amor, é apego. Se fosse amor, você saberia deixá-lo morrer. Entenda que apego é diferente de paixão. Há uma linha tênue separando os dois, na verdade. O apego só difere da paixão porque ela pede reciprocidade emocional, sentimentos, e o apego só exige a presença, a assiduidade. Não fosse por isso, seriam apenas nomes diferentes a se dar a um grave transtorno obssessivo-compulsivo.
       Estava aqui pensando antes de desabar esses pensamentos todos que já me lotavam a cabeça: sofre mais quem tem apego ou quem sente amor? Por duas vezes hoje, conversei com amigas que sofrem por amor, e lhes disse tudo aquilo que eu acho que deve ser dito a uma mulher que ama e é menosprezada pelo cara. Tudo o que eu precisava muito ter ouvido, mas nunca ninguém me falou e eu tive que aprender a duras penas. Na internet, compartilhei uma imagem com o breve diálogo que segue:
- Por que você tá assim?
- Porque eu vi pessoas que eu amo, amando pessoas que eu odeio.
         Aí eu parei pra pensar... e percebi que isso (ver pessoas que eu amo amando quem quer que seja, na verdade) me fez sofrer, e muito mas, acima de tudo, me fez crescer. Me fez crescer e não ser mais dependente do amor de ninguém. Se a solidão fere, o desgosto mata, e eu escolhi não morrer de amor. Escolha sábia, a princípio, mas sou uma pessoa que sempre carece de muletas emocionais. Contei a todo mundo que não morro mais de amor, mas precisava vir aqui contar a vocês que morro de apegos. Hoje esse, amanhã aquele, mas vivo envolta por um ciclo de apegos que não se rompe jamais. Cansei de me apegar, cansei de tentar, amar, cansei de ser atordoada por paixões. Hoje eu só queria ir dormir e, amanhça, acordar com o coração limpo de qualquer sentimento. Eu não quero mais querer ninguém.
        Eu nunca tive a oportunidade de falar sobre essa minha ânsia, essa minha agonia, pra ninguém, então tô vindo aqui falar pra vocês. Eu sei que isso não resolve as coisas. Não pra mim, mas espero que sirva pra vocês aprenderem que o autocontrole é tudo, que o amor próprio é tudo e mais um pouco e principalmente que se alguém faz bem pra gente por 5 minutos, e só por 5 minutos que a gente deve pensar e querer essa pessoa, e mais nada. Caia no rolê, se divirta, esteja com quem quiser, mas não se apegue. Se o amor mata, o apego destrói. Aos poucos.

(Eu sei que essa música fala de drogas, mas definitivamente associo sua letra a pessoas, ok?)

Erros de digitação

NOTA PARA MEUS ERROS DE DIGITAÇÃO


Eu andei percebendo nos meus posts recentes que havia uma quantidade descabida de erros, mas são erros de digitação. Peço que me perdoem. Os erros de Português são meus mesmo, pois não sou uma exímia escritora. Já os erros de ortografia, desconsiderem, por favor. São fruto da minha incapacidade de concentração em qualquer coisa que seja. Com o tempo, corrigirei um a um; prometo.


Certa da compreensão dos meus estimados leitores, agradeço pela paciência e atenção dispensada.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Agradecimento

     Eu sempre pensei que ninguém lesse isto aqui, que é uma grande bobagem, na verdade. São só sentimentos que eu não tenho para quem contar. Fico feliz por vocês lerem. Por um motivo ou por outro, eu sei que há pessoas que acompanham este mero blog desinteressante com uma certa frequência. Não tenho palavras para agradecer. Um leitor a mais, é uma dor a menos. De verdade. Pensar ser compreendida não tem preço. Vocês só me fazem bem. Muito obrigada a vocês que passam por aqui.



Beco escuro

     Eu tenho até um certo receio em dizer, mas às vezes penso que essa vida que levo um dia ainda há de acabar me matando. De desgosto ou de fato, temo não haver outra saída deste ciclo em que me encontro. Se a morte for o único caminho para a paz, que se faça real então. O que eu não posso é com essa tortura psicológica que parece não ter fim. Na ânsia de ser feliz tenho adentrado becos cada vez mais escuros, e não há sinal de que alguém possa iluminar meu estreito caminho.
     Tudo me dói. Minhas escolhas, meus erros. Cada passo que dou rumo a um lugar que não conheço bem, me faz tudo doer. Não sei o que me dói mais: a cabeça, o coração, a consciência ou o ego. As consecutivas derrotas e os desapontamentos me rasgam a alma, me banham em um sentimento misto de humilhação, angústia, medo e solidão contra o qual já não consigo mais lutar. E já não sei se posso reclamar. As escolhas erradas tem um preço muito alto, e suas consequências duram uma vida inteira. Mas não, não posso reclamar. Não se pode ser infeliz sem culpa, porque sempre tem gente pior que a gente, mas isso não quer dizer que a vida não me dói. Quer dizer que eu calo em respeito a quem sofre mais que eu. Calo porque não acho justo diante das desgraças do mundo, mas acontece que fingir felicidade também machuca, também dói. Me deixa ser infeliz sem me cobrar nada. Eu não gosto de ser assim, eu não quero ser assim, mas eu não posso mudar as predestinações da vida. No final, a gente senta e se lamenta, porque cada um cavou o buraco em que se encontra.
    É duro ter que contar com um salvador que nunca vem. Estar condenado a passar uma existência inteira caminhando sozinho por becos escuros e ter consciência disso é, no mínimo, enlouquecedor. E não se pode reclamar. A vida que a gente escolhe levar vai determinar quantos sorrisos a gente vai poder dar. E quantos a gente não vai poder. Mas não se pode reclamar... afinal, são tudo escolhas, não é? E no final das contas, a gente morre e não sabe se o que estragou tudo foi o que a vida fez da gente ou se foi o que a gente fez da vida. E um dia você chega àquele ponto em que sua maior felicidade é ver os passarinhos no jardim. Nada mais na sua vida te faz feliz. Simplesmente não há acontecimentos felizes, só uma nuvem negra despejando uma incessante chuva negra.
     Hoje me dói escrever. Me dói olhar no espelho. Me dói pensar, estar acordada. Hoje eu só queria um colo em que pudesse me deitar. Hoje eu só queria dormir. Dormir talvez para nunca mais acordar. Que a vida me traga a paz, porque eu gosto em viver eu já perdi há tempos. Às vezes me surge uma ponta de vontade de lutar contra isso tudo, algo que se parece com esperança, mas o medo de mais uma derrota é maior. Sempre maior. O medo domina. O medo destrói.

Pra quem não sabe, a música é inspirada em Marcha, da angelical Cecília Meireles